2006/10/30

Evoluir ou morrer


Quando falo de BIM a um arquitecto, e a aplicação das TI à arquitectura em geral, uma das opiniões recorrentes é “ os computadores são ferramentas inadequadas para a arquitectura”.

Seja através do argumento “o lápis como extensão do cérebro”, ou outros como “os computadores são demasiado exactos”, “o pensamento criativo requer tempo”, “ não é possível sentira a escala num ecrã de computador”, a generalidade dos arquitectos oferecem grande resistência à incorporação de computadores no processo de design.

O que a maioria não percebe é que os arquitectos correm o risco de se tornar inadequados para os computadores.

Pior, a própria arquitectura poderá tornar-se incompatível com os computadores.

Temos tendência a pensar na nossa profissão como sendo imutável. Afinal, existem arquitectos há mais de cinco séculos.

Mas esquecemo-nos que os arquitectos substituíram outras profissões mais antigas, como os mestres de obra.

Com a introdução de melhorias tecnológicas (métodos de representação ortogonal e perspectivas cónicas) e evoluções sociais (a nobreza tome conta do processo creativo da construção) o design dos edifícios transferiu-se da obra para o atelier.

Mas a conversão não foi pacífica. Os mestres de obra não foram reciclados em arquitectos. Foram extintos.

Devemos manter esta lição em mente, agora que os arquitectos enfrentam uma nova revolução tecnológica (computadores, industrialização) e sociológica (democratização da arquitectura).

Há muitas coisas neste mundo novo com as quais os arquitectos simplesmente não sabem lidar:

  • Industrialização. Ao contrário de outras áreas (automóveis, mobília, vestuário) a construção ainda não foi verdadeiramente industrializada. Nós estamos mal treinados para lidar com ela.

  • Opinião pública. Cada vez mais gente tem opinião sobre a arquitectura. Nós não gostamos disto. Os arquitectos preferem manter-se acima da discussão.

  • Tecnologia da informação. Ao contrário dos engenheiros, o ensino da arquitectura descende das Belas Artes, como tal desligado da tecnologia. Custa-nos imenso integrar os computadores na prática profissional.

  • Diminuição da importância da arquitectura no contexto do edifício. Com a incorporação de cada vez mais tecnologia nos edifícios, a arquitectura poderá eventualmente perder o seu papel de liderança na concepção do edifício. Nós não gostamos disto, pois vemo-nos como sendo os “chefes” da equipa.


Claro que estes problemas não nos cativam. Nós queremos criar ARTE, e não perder o nosso tempo precioso com estes assuntos secundários. As coisas têm corrido lindamente nas últimas centenas de anos, por isso não vai haver problema. Certo?

Errado!

Independentemente da opinião dos arquitectos, as coisas estão a mudar.

A construção, uma das indústrias menos industrializadas (!) está a recuperar o tempo perdido, e haverá um aumento de procura de designers digitais. Profissionais que sejam capazes de desenvolver edifícios virtuais, que sejam capazes de compreender as necessidades do mercado.

Se não forem arquitectos, outros o farão.

O meu receio é que, face à vontade férrea por parte dos arquitectos de ignorar esta questão, iremos certamente ser ultrapassados pelas circunstâncias, acabando por extinguir-nos.

7 comentários:

Patricia disse...

Realmente, minha frase de hoje faz todo o sentido. Tapar os olhos para o que acontece à nossa volta pode ser uma opção bastante confortável para os que se acomodam e não se interessam por aprender e evoluir. Ignorance is bliss, indeed!

Anónimo disse...

Bom post!

De realçar a alusão à cada vez maior necessidade de abrangência das novas tecnologias por parte das profissões actuais, que para mim também me parece inevitável. E também o facto de a indústria da construção se apresentar, de facto, desactualizada e demasiado tradicional, facto que terá que ser obrigatoriamente contornado face aos desempenhos cada vez piores do sector da Construção em Portugal.

Miguel Krippahl disse...

Uma caricatura:

Um arquitecto vê nas notícias despedimentos em massa no vale do Ave, em virtude da incapacidade da indústria do calçado de se modernizar, e pensa que esta questão apenas afecta os outros.
HAH!

Anónimo disse...

Existem muitas diferenças entre o objecto e o sujeito, uma delas postula que: o objecto é passivo face às ciscunstâncias que o rodeiam, isto é, ele depende delas, são elas que lhe dão o sentido; o sujeito, pelo seu lado, é activo face às ciscunstâncias que o rodeiam, isto é, sabe que depende delas, mas também sabe que as pode mudar.
Dizia Nietzsche:
O sancta simplicitas! Como o homem vive numa simplificação e falsificação singulares!
É que, se a arquitectura é apenas o design de novos objectos a que chamamos edifícios então, "ser independente é uma questã que diz respeito a uma muito pequena minoria, é um privilégio dos fortes." (Niet.)

Anónimo disse...

Existem muitas diferenças entre o objecto e o sujeito, uma delas postula que: o objecto é passivo face às ciscunstâncias que o rodeiam, isto é, ele depende delas, são elas que lhe dão o sentido; o sujeito, pelo seu lado, é activo face às ciscunstâncias que o rodeiam, isto é, sabe que depende delas, mas também sabe que as pode mudar.
Dizia Nietzsche:
O sancta simplicitas! Como o homem vive numa simplificação e falsificação singulares!
É que, se a arquitectura é apenas o design de novos objectos a que chamamos edifícios então, "ser independente é uma questão que diz respeito a uma muito pequena minoria, é um privilégio dos fortes." (Niet.)

Anónimo disse...

Existem muitas diferenças entre o objecto e o sujeito, uma delas postula que: o objecto é passivo face às ciscunstâncias que o rodeiam, isto é, ele depende delas, são elas que lhe dão o sentido; o sujeito, pelo seu lado, é activo face às ciscunstâncias que o rodeiam, isto é, sabe que depende delas, mas também sabe que as pode mudar.
Dizia Nietzsche:
O sancta simplicitas! Como o homem vive numa simplificação e falsificação singulares!
É que, se a arquitectura é apenas o design de novos objectos a que chamamos edifícios então, "ser independente é uma questão que diz respeito a uma muito pequena minoria, é um privilégio dos fortes." (Niet.)

Miguel Krippahl disse...

Deve ser verdade, pois foi dito quatro vezes.
Resta saber o que foi dito...