2006/12/31

O BIM e a Ordem dos Arquitectos

Como arquitecto preocupado com as questões que relacionam as tecnologias de informação com a arquitectura, especialmente na vertente projecto/obra, tenho acompanhado atentamente as posições que a Ordem do Arquitectos vem tomando sobre o assunto.

E, resumidamente, a posição da OA quanto ao BIM, é esta:

Nada!

Se fizermos uma pesquisa no portal da OA, temos os seguintes resultados:

BIM – 0
Building information model – 0
Modelo de informação do edifício – 0
Desenho assistido por computador – 0
Computador – 0
CAD – uma data delas, mas nenhuma relacionada com CAD (bom motor de busca, este)

Podia continuar com outras palavras chave, mas penso que já dá para ter uma ideia qual a importância que a Ordem do Arquitectos atribui às tecnologias novas:

Zero.

Curiosamente, numa pesquisa mais selectiva (à pata), encontrei, ao nível da formação contínua promovida pela secção regional do Sul, uma formação com o título sugestivo “Arquitectura e Internet”. Não existe nenhum programa, mas presumo que seja mais vocacionado para a apresentação (fazer web pages bonitinhas, brancas ou pretas, como é hábito dos arquitectos), e não sobre o uso da ferramenta informática na concepção arquitectónica.

Aliás, da consulta sistemática das publicações da OA, do programa dos vários Congressos e iniciativas, dos programas eleitorais, de toda a informação emanada da OA (que é muita), NUNCA encontrei uma única menção à questão do uso das ferramentas informáticas nos gabinetes de arquitectura, muito menos sobre o BIM.

Dirão, ou pensarão, alguns leitores:”Este gajo é parvo, lá porque tem um fetiche pelo BIM, pensa que a Ordem dos Arquitectos (com maiúsculas), que trata de coisas sérias e relevantes para os associados e para a sociedade, se deve preocupar com coisas tão comezinhas como a marca da lapiseira que cada gabinete usa.”

Bem, terão razão quanto ao parvo e ao fetiche, mas quanto à pertinência da matéria, sugiro um saltinho (à distância de um clique) ao AIA – The American Institute of Architects, que criou um grupo de trabalho que se dedica exlusivamente ao BIM.

Nas palavras deles “The AIA will define a vision for the future of Integrated Practice and project delivery and will implement an action plan that will support our profession in meeting the emerging challenges of early collaboration and information sharing.

Ou seja, a AIA entende que os arquitectos tem uma palavra a dizer sobre o modo como os projectos e as obras se irão desenvolver no futuro, e que essa palavra deve ser veiculada pela Associação da classe.

Porque é que a OA ignora por completo um tema que suas congéneres consideram fulcral para o futuro da profissão?

Dirão alguns que é uma questão de prioridades. Com problemas da magnitude que a OA tem que lidar, como seja a revisão do setentaitrêssetentaitrês (já oiço esta lenga-lenga há vinte anos, desculpem-me o cepticismo), o inquérito à arquitectura do séc. XX, os abusos urbanísticos, o sistema de admissão, a agenda para os associados, à OA não sobra tempo nem recursos para se dedicar a uma matéria que é periférica à prática e à sua missão.

Talvez seja.

Para mim, não serão alheios os seguintes factos:

- O BIM, assim como os computadores em geral, não interessam às gerações mais velhas de arquitectos.
- O BIM não interessa às Universidades, ou, mais especificamente, aos docentes das Universidades (gerações acima mencionadas).
- Como tal, o BIM não interessa (por desconhecimento) aos alunos e recém licenciados.

Mas, se ninguém se interessa por este problema, então é porque ele não existe (excepto para alguns fetichistas e para a American Association of Architects, que partilha a cama com as grandes casas de software).

Errado.

Há outras profissões em Portugal, nomeadamente ligadas às engenharias, que estão bastante atentas ao desenvolvimento desta nova maneira de projectar/construir.

Há empresas de construção que começam a olhar para o BIM como um sistema a implementar no futuro.

Como já disse antes, se os arquitectos não se envolverem activamente neste processo, outros o farão.

Depois não se queixem por já não sermos necessários para nada…

14 comentários:

Patricia disse...

É... parece que prá eles é mais importante saber a quem eles vão dar a hoooonra de chamar de "senhor arquitecto" (em vez de usar o nome próprio do indivíduo) do que tornar esse senhor arquitecto um bom profissional! Assim ficam uns massageando os egos dos outros e todos fingem que são bem sucedidos! Já agora, gostei da carinha nova do blog!

Miguel Krippahl disse...

Patrícia

Bem sei que é injusto generalizar, mas fica a sensação que,para "eles", é mais importante manter os status quo, ou seja, que os bons projectos continuem a ir sempre para os suspeitos do costume.
Que se enquadram na primeira categoria que referi, logo, pouco preocupados com essa coisa de "rigor".

Hugo Gaio disse...

Recomendo uma leitura deste tópico: http://www.forumenergia.eu/viewtopic.php?t=769

Hugo Gaio disse...

O arquitecto Eduardo Souto Moura afirmou ao Jornal de Notícias (06/01/07) que não sabe mexer em computadores. O melhor que sabe fazer é passar os Power Points nas conferências....

Palavras para quê?

Miguel Krippahl disse...

A atitude depreciativa da maioria dos arquitectos "seniores" face às novas tecnologias deriva directamente da apreensão do trabalho CAD como sendo herdeiro do trabalho de desenho, logo, inferior na óptica destes.

Aliás o uso da tecnologia de um modo geral é visto pelas ditas classes sociais elevadas como uma extensão do uso de ferramentas, logo, trabalho braçal.

Em Portugal, claro.

Nos países mais evoluidos, essas mesmas classes usam as tecnologias no seu potencial máximo, não como ferramentas indignas mas como complementos aumentadores das capacidades do indivíduo.

A afirmação de ESM deixa-me triste, não por ser ele a dizê-lo (pouca coisa me surpreende nele) mas porque denota uma cultura que teima em desaparecer, e que tem parte da responsabilidade na baixa produtividade e falta de inovação crónicas cá no nosso burgo.

Haja uma nova geração capaz de mudar isto.
Pela minha parte, faço o que posso, sendo este blog dirigido essencialmente a eles, e não aos ESMs que difícilmente mudarão de opinião.

hugo gaio disse...

O comentário seguinte está originalmente colocado em http://www.forumenergia.eu/viewtopic.php?t=769

Todos os dias somos bombardeados com noticias que nos deixam cada vez mais atentos à realidade do nosso país.
Não resisti em partilhar convosco uma situação caricata À qual não sei como reagir!!!

«Todos os anos entram no mercado 1000 novos arquitectos, licenciados nas 13 faculdades estatais e privadas que existem de norte a sul do país. (...)Apesar da procura do curso, o mercado de trabalho não está fácil, como lembra a bastonária da Ordem dos Arquitectos, Helena Roseta.(...)
Por isso, é urgente dar mais oportunidades a estes profissionais.(...) »

http://expressoemprego.clix.pt

«A Câmara de Matosinhos pretende construir o Museu da Arquitectura e o presidente da autarquia, Guilherme Pinto, lançou esta sexta-feira um repto a Siza Vieira para desenhar o edifício.»

«Vou ver se arranjo tempo», respondeu o arquitecto.

Diário Digital / Lusa

A conclusão é desnecessária....

jo_almeida

Miguel Krippahl disse...

Hugo

Não sendo assunto que tenha lugar específico neste blog, dedicado ao BIM, não posso deixar de fazer algumas observações:

Licenciarem-se 1000 estudantes de arquitectura por ano não é o mesmo que entrarem 1000 arquitectos para o mercado de trabalho.

A minha experiência diz-me que muitos destes mil (metade?) apenas estão interessados em ter um título que soa bem, e continuar a viver no Hotel Mamã.

Há um par de anos abri uma vaga para arquitecto no meu gabinete, localizado no interior. Esta vaga foi publicitada no site e boletim da Ordem, no entanto tive menos de meia dúzia de candidaturas.
Invariávelmente, esses (poucos) candidatos exigiram condições irrealistas (€1.200 limpos por mês para recém licenciado), deixando-me a real sensação que no fundo, queriam uma nega, para poderem continuar a viver à custa dos papás.

Por isso repito: Mil licenciados não são mil arquitectos.

Quanto a "dar oportunidades a estes profissionais", lembro-me que a mim ninguém me "deu" oportunidades. Fui eu que as criei.

As oportunidades criam-se, por exemplo, estando disposto a sair do aconchego do lar materno e ir trabalhar para o interior do país - onde há muitas oportunidades de trabalho.

Outro exemplo foi um curso de ArchiCAD que promovemos há dois anos na nossa Universidade, em Viseu. Apesar de termos enviado mais de 800 cartas de convite a arquitectos de toda a região centro, apenas apareceram 5. Cá está, como os arquitectos ficam á espera que lhes "deêm" uma oportunidade.

Quanto ao exemplo da Cãmara de matosinhos/Siza vieira, não vejo o que tem a haver com a falta de vontade, por parte dos recém licenciados, de trabalhar.

Porque é disso que se trata. os nosso colegas querem tudo, e querem-no agora. Não têm a predisposição de trabalhar 20 ou 30 anos no sentido de ocuparem o seu nicho de mercado.

na verdade, nesta história toda, apenas me preocupa a alteração do setentaetrêssetentaetrês.
caso tal aconteça, esses mesmos recém licenciados serão presa fácil dos desenhadores e construtores, que lhes irão comprar a assinatura por meia dúzia de tostões.

E lá se vai a (pouca) reputação que ainda resta à nossa classe profissional.

hugo gaio disse...

Miguel Krippahl

Penso que a questão do emprego não pode ser dissociada dos assuntos BIM/CAD/inovação. Por essa razão achei oportuno escrever neste seu blog.

A falta de emprego é uma realidade principalmente quando se utilizar técnicas/tecnologias ultrapassadas e sem real criação de valor ao projecto, e que podem ser desempenhadas por “qualquer” arquitecto, já que não introduzem diferenciação relativamente ao trabalho final.

É minha convicção que o BIM seja uma “tábua de salvação” para um jovem arquitecto recém licenciado na medida em que proporciona a tal “oportunidade” de realizar um trabalho diferente e de qualidade superior ao dos restantes “1000 licenciados” e que certamente será incorporado no mercado de trabalho, por mais que não seja através da criação do seu próprio emprego através de um nicho de mercado que neste momento é emergente mas que se futuro decididamente será a norma.

Miguel Krippahl disse...

Hugo

Essa faceta do desemprego tem relevância para este Blog, sobre o BIM.

No entanto, levanta algumas questões que me inquietam:

O BIM não é para todos. O grau de exigencia que deriva do uso de ferramentas BIM faz subir a fasquia, ou seja, difícilmente um recém licenciado, com pouco conhecimento de obra (preparação e gestão de obra, questões administrativas, técnicas e materiais, etc) consegue construir um modelo virtual e retirar essa informação, ao mesmo tempo que projecta.

Sendo o BIM muito mais difícil que o CAD, do ponto de vista do projectista, é também muito mais eficiente. Logo, exigindo muito maior conhecimento, também reduz significativamente o tempo dispendido. Na prática, isto significa pessoal mais qualificado (não recém licenciados), mas também menos pessoal.

Como tal, com a implementação do BIM a tendência será empregar menos gente, mas mais qualificada.

Partilho a sua convicção, expressa no último parágrafo. Por isso mesmo lecciono essa matéria aos meus alunos. Estou certo que esta ferramenta será um argumento de peso na procura de soluções profissionais. Mas apenas porque não existe concorrência, ou seja, porque nas outras universidades ensina-se os alunos a serem desenhadores (Autocad), para engrossar as fileiras de estagiários descartáveis que alimentam a maioria dos gabinetes neste momento.

Revit_blog disse...

Em resposta ao assunto inicial deste post, só queria deixar aqui uma achega, actualmente que começa a liderar os projectos BIM, não são os arquitectos, supostos detentores da ideia/arte ,mas sim os reais detentores, os Donos de Obra. Na minha modesta opinião as ferramentas de BIM, não são reduziveis a meros processos melhorados de realizar projectos, e como tal começam a sair da esfera do atelier para começar a ser peças fundamentais de trabalho para as engenharias, a decoração de interiores, a gestão do ciclo de vida do edificio, etc. Como tal começa-se a ver crescer o interesse na utilização deste conceito numa utilização muito mais alargada do que apenas na execução do projecto. Estejam atentos, porque um projecto de arquitectura dificilmente vale 10% da Obra, e a Obra depois de concluida tem outros custos futuros ainda mais importantes que a construção. Logo estamos perante uma ferramenta para gerir todo o ciclo de vida da Obra, a um nivel que rápidamente sai do control dos Arquitectos, que correm o risco de se tornar uns meros desenhadores de ideias, passando a importancia da Obra a ser atribuida aos Gestores da mesma.

Miguel Krippahl disse...

Meu caro e anónimo Revit-blog

Concordo consigo em quase tudo, excepto na afirmação que a arquitectura vale 10% da obra.

A arquitectura vale 100%, porque é a partir dela que as outras especialidades desenvolvem o seu trabalho.

As boas - e más - decisões de projecto, em fase de arquitectura, têm consequências determinantes em todas as outras especialidades.

Tem também , por razões evidentes, consequêmcias determinantes na gestão dos edifícios.

O BIM permite-nos fundamentar melhor as nossas decisões de projecto, porque fornece mais dados

Revit_blog disse...

Anónino não, Fernando Oliveira,
seguindo, eu quando falo em 10% falo do valor monetário, da fatia de valor da obra que vai parar ao arquitecto e colaboradores, ou seja, temos a ideia, desenvolvemos a obra, e cada vez mais perdemos o control sobre a mesma.
Já tenho actualmente donos de obra e mesmo empresas de execução a modelar os projectos que recebem 2d dos arquitectos, para modelo BIM, de forma a poderem minimizar custos de produção, evitar erros e gerirem de forma mais eficiente a Obra, tudo isto está a passar ao lado da maioria dos arquitectos, que como eu dizia, se arriscam a passar ao lado desta alteração de processos.
Estejam atentos...

Anónimo disse...

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