2006/11/26

interoperabilizi… interoperacionali… interoperacibili…

Uma das grandes alterações que o BIM vem introduzir no método de fabrico de projectos é a interoperabilizi… interoperacionali… interoperacibili… o trabalho em conjunto.

Tradicionalmente, um projecto passa por várias fases e diversos intervenientes.

Desde o levantamento feito por topógrafos, o design do edifício por arquitectos, as especialidades (estabilidades, redes de águas, esgotos, eléctricas, telecomunicações e gás, para apenas mencionar as mais vulgares) e no fim as medições, para cada projecto é montada uma equipa multidisciplinar, com incumbências específicas, cujo trabalho de cada elemento influencia e é influenciado pelos outros elementos.

O método tradicional, herdado da prática analógica, consiste em fazer cada especialidade entrar num dado momento do projecto, recebendo o que vem de trás e informando os que estão a seguir.

Chamo a este método “o que vem a seguir que se amole”.

Basicamente, os erros e omissões vão passando de mão, na expectativa de alguém acabar por os resolver. Nem que seja o empreiteiro.

Cada especialista responsabiliza-se apenas pela sua parte, sem se preocupar excessivamente com a compatibilização entre os vários projectos.

Ao arquitecto cabe tradicionalmente o papel de coordenador, pelo menos na teoria. Com a crescente complexidade dos chamados projectos das especialidades, o arquitecto raramente tem conhecimento e oportunidade de realmente coordenar os trabalhos, delegando a compatibilização para os respectivos autores.

A própria velocidade a que os projectos têm que ser executados fazem com que os projectos sejam muito mais uma linha de montagem do que um trabalho de grupo.

Assim, problemas detectados numa fase avançada do projecto (por exemplo colisões entre a arquitectura e o AVAC) sejam extremamente difíceis de resolver sem pôr em causa os prazos de entrega.

O modelo único tridimensional do nosso edifício, associado a uma base de dados alfanumérica, partilhado por todos os intervenientes, propõe resolver este problema.

A ideia será que todas as especialidades irão partilhar uma base única, em constante aperfeiçoamento. O trabalho desenvolvido pelo arquitecto, desde a primeira fase de concepção, estará acessível aos diferentes engenheiros, que irão ajudar na procura de soluções. Os projectos serão todos correlacionados, de modo a garantir a sua total compatibilidade. A autoria será partilhada por todos, assim como a responsabilidade.

Soa bem, não?

Claro que, para este cenário cor-de-rosa ser realidade, há que ultrapassar diversos obstáculos, a saber:

- O arquitecto não quer prescindir do seu papel de coordenador. Dá prestígio.
- Ninguém está especialmente interessado em poupar dinheiro ao cliente. Os extras (viagens, descontos, publicações ou mesmo dinheiro) que cada projectista recebe dos fabricantes dos materiais poderá ser posto em causa se as suas opções forem mais transparentes.
- Ninguém quer assumir a responsabilidade.
- Ninguém quer partilhar o seu trabalho.
- Ninguém quer submeter o seu trabalho à crítica dos demais intervenientes.
- Ninguém sabe realmente trabalhar em grupo.

Claro que a maioria destes problemas depende da formação cívica dos projectistas, mas a sua formação profissional também contribui para a aceitação, ou rejeição do modelo BIM.

Como exemplo, podemos ver o trabalho que está a ser feito do outro lado do mundo, na Universidade de New South Wales, pelo professor Jim Plume, conforme apresentado numa recente comunicação em Lisboa.

Os alunos dos vários cursos relacionados com a construção, planeamento, arquitectura, engenharias, paisagistas, orçamentistas e gestores de obra colaboram no mesmo projecto, simulando o (que deveria ser o) mundo real.

Se pensarmos como funcionam as nossas universidades, fechadas em capelinhas, depressa podemos concluir que o cenário em Portugal será bem diferente.

Por estes motivos, acho que implementar a interoperabilidade nos projectos será bem mais difícil que soletrar a palavra.

5 comentários:

Rafael Fernandes disse...

Sobre este tema "interoperabilidade", consultar
http://www.iai-na.org/technical/faqs.php

Nos novos paramétricos (BIM) é frequente a referência ao "IFC Model". Esse modelo remete para a compatibilização dos diversos formatos existentes no mercado (Revit, Archicad, Triforma, Allplan Nemetscheck, ADT, ARCHI WinSTAR, etc)

A ideia é "disciplinar" esse mercado e tornar possível a troca correcta de informação (sem perda de dados) entre os diferentes formatos e as diferentes especialidades em jogo, possibilitando por exemplo a quem trabalhe com Revit ou outro de software, possa trabalhar com projectos feitos com Archicad ou outros e vice-versa, sem sentir a necessidade de adquirir o software produtor do formato nativo original.

Complementarmente a isto tudo, está em desenvolvimento o formato “aecXML” com o objectivo de se criar o formato standard para a nossa "indústria" de Arquitectura, Engenharia e Construção. Quero com isto dizer, que dentro de um fututo próximo estaremos a gravar os nossos projectos como “aecXML”, em vez dos tradicionais e já conhecidos rte, pla, dwg, ...


Quanto ao mundo real, costumo sempre dizer aos meus colegas arquitectos para não se deixarem intimidar pelos “especialistas” engenheiros. O que é uma courrete ou uma conduta diâmetro x ou y, face à complexidade do edifício todo? O engenheiro do Avac que se preocupe com as suas condutas de 300 ou de 500; ele que nos diga apenas quanto é que precisa para os fazer passar ou nos tectos ou nos pavimentos falsos. Aos especialistas de estrutura, as dimensões e a geometria dos pilares, vigas e lajes. Aos homens da canalização, onde é que passam os canos ... e mais: NEM SEI PROQUE OS ARQUITECTOS NÃO FAZEM ESSES PROJECTINHOS ... Ferramentas, conhecimento e formação para os fazer não nos faltam ... Nos outros países (Espanha, Alemanha, EUA, etc), nos projectos correntes até 3 (?) pisos, os arquitectos é que fazem todos esses projectos.

E mais: a própria Direcção de Obra poderia e deveria ser feita pelos Arquitectos!

Os engenheiros, para além dos projectos de engenharia, podem desempenhar essas tarefas todas e mais algumas. Aos arquitectos portugueses, hoje em dia, a única saída profissional que lhes resta ... é ir para os atelier’s com um salário precário de 5 euros por hora (com recibo verde!), ou pior ainda, sem receber um único tusto!

... e estava eu a falar de interoperabilidade ....

(arq.rfernandes@gmail.com)

Miguel Krippahl disse...

Assisti há dois meses a um workshop dedicado ao BIM, http://www.opet-online.org/, organizado pela OPET, onde o prato forte foi o SMART building, baseado pesadamente no IFC.
Ese protocolo de partilha tem algu futuro, mas conta com a má vontade da Autodesk, que não quer perder o monopólio dwg/dwf.
Para mim, não me interessa tanto a tecnologia em si, qual a marca ou entidade que vai unificar os formatos.
O que me interessa realmente é saber o que nós vamos fazer quando isso acontecer.
E aí sou bastante pessimista.

Rafael Fernandes disse...

A Autodesk tem sido (feliz ou infelizmente) o mal necessário. É como a Microsoft com o Windows para os sistemas operativos ...

A salvação (vamos ver se não será também o fim) da Autodesk é a recente aquisição da tecnologia REVIT. De facto, quem experimentar, não vai querer outra coisa. É um programa estupidamente bem idealizado. Sintetiza os obejtos paramétricos à sua essência, às suas primitivas geométricas: Ponto, Linha, Plano e Volume. Eis o truque, em termos de algorítmos de programação, para que os ficheiros do revit sejam mais leves e o seu processamento mais rápido, comparativamente aos produtos concorrentes. A ver se os rapazes da Autodesk não desta tecnologia ...

Esse conceito de Ponto, Linha, Plano e Volume foi repescado dos SIG's, onde a interoperabilidade é uma realidade.

A dimensão da interoperabilidade entre sistemas AEC e a grande evoluçaõ que estamos a assistir, ultrapassa a simples lógica dos softwares, do dwg, do dwf, do autocad, etc.

Basta vermos as movimentações que estão a ocorrer: Os gigantes dos CAD/CAM das indústrias automóveis, aeroespaciais, do AM/FM, e das próprias empresas de Construção Civil estão aí.

Veja-se o caso da aliança do software de mecânica da Dessault System (www.3ds.com) "Catia", com o nome sonante da Arquitectura mindial Frank O. Ghery, do qual resultou o lançamento do paramétrico BIM "Digital Project" Gehry Technologies (http://www.gehrytechnologies.com/company.html)

Veja-se a dinâmica das universiades norte-americanas (e não só), por exemplo a MIT ou a Stanford University (ver links na página do Sr. Gehry http://www.gehrytechnologies.com/company-links.html)

Não deixem de ver o "CIFE" da Stanford University, principalmente o perfil do seu Director Martin Fischer, para nos levantar o ego ... ele etm lá uma frase em pt ...
(http://www.stanford.edu/%7Efischer/background/index.html)


Portanto, a Autodesk não tem como fugir e não entrar neste jogo ... sob pena de perderem o comboio ...

Anónimo disse...

Bom post!

Considero, concordando com a posição do miguel, que trazer uma visão baseada em marcas de produtos apenas faz com que se reduzam as potencialidades do conceito BIM. Nesse sentido congratulo o autor por resistir a essa tentação (não colocando, no entanto, de parte uma ou outra alusão).
O post toca pontos muito importantes e é especialmente interessante o ponto de vista de um arquitecto, que, no âmbito deste novo conceito, tem que pôr de parte alguma supremacia que detém actulamente no processo de concepção de projectos. O miguel toca esse ponto com frontalidade referindo como um dos obstáculos à implementação do BIM :"O arquitecto não quer prescindir do seu papel de coordenador. Dá prestígio"
Realmente julgo que os arquitectos terão um papel crucial podendo representar um dos principais motores da implementação BIM.
Por outro lado penso que essa supremacia dos arquitectos deve ser repensada, não só devido a este novo conceito, mas também devido às cada vez maiores exigências de concepção que, por exemplo no caso de infra-estruturas especiais como os hospitais, se reflecte na existência de muitos conhecimentos que poderão condicionar a organização dos espaços e que, por exemplo, deverão ser analisados por engenheiros de sistemas, neste caso trabalhando em conjunto com os arquitectos, formando uma equipa com poderes equilibrados.

Horácio Luís Baptista disse...

Como projectista digo: bom texto!