2007/03/09

O BIM e o CAD

A propósito do post o BIM e os Empreiteiros, em que se conjectura sobre o intitulado "BIM-um caso de insucesso" da Mota-Engil, gostaria de me debruçar um pouco mais sobre as raízes desse insucesso.

Há cerca de dois anos tomei conhecimento de outro caso de insucesso, desta vez na área do projecto.

Um gabinete de projectos alemão, com cerca de 10 arquitectos, decidiu avançar para a metodologia BIM.

Aliás, um dos (2) sócios decidiu.

Fez-se uma prospecção do mercado, adquiriu-se o software, fez-se a formação necessária e começaram a implementar a metodologia em projectos piloto.

Volvido um ano, tudo continuava na mesma. Todos os arquitectos, sem excepção, continuavam agarrados ao velho software 2D, o tal AutoBAD presumo, e ninguém sentia-se realmente à vontade para mudar.

Eis que um dos sócios trava contacto com um aficcionado do BIM, um envangelista (eles andem aí), que acabou por contagiá-lo com o entusiasmo pela base de dados 3D e todas as suas virtudes.

Todos nós reconhecemos (se calhar no espelho) este género de figurões, que não se calam com o BIM, e estão sempre a falar sobre ele, talvez até a escrever blogs e porcarias do género...

Adiante. Contagiado com o entusiasmo, este sócio acabou por galvanizar os seus trabalhadores, e volvido outro ano, metade dos arquitectos daquele gabinete já trabalhavam com base no BIM.

A conclusão: Não se trata de software, hardware, vontade ou discernimento.

Trata-se de paixão.

E porquê? Tendo em conta que o BIM traz tantos benefícios, claros, à produção de projectos, porque é que isso não é suficiente para fazer mudar os hábitos?

O CAD aliás é disso um bom exemplo. A mudança do estirador para a prancheta electrónica foi rápida e consensual, se comparado com o que se passa com o BIM. Afinal, o tal BIM já existe, numa forma ou noutra, há mais de 20 anos.

Na minha modesta opinião, a diferença principal é que o BIM ainda não cumpre com o prometido.

A tal base de dados tridimensional, integrada, paramétrica, ainda não existe de forma a poder ser trabalhada pelos projectistas, empreiteiros e afins de um modo seguro e eficiente, como se passa com a prancheta electrónica.

Quanto mais gente trabalha com o BIM, mais se descobrem as fraquezas das plataformas actuais.

Os fabricantes de software andam a prometer o céu, mas os utilizadores mais avançados têm vindo a descobrir que afinal o quadro não é tão cor de rosa como o pintam.

Por causa disto, é necessário qua haja gente realmente entusiasmada com o BIM, que esteja disposta a suportar todos os seus problemas, que use o software ao seu limite e force assim os fabricantes a aperfeiçoar esse software.

11 comentários:

Rafael Fernandes disse...

Excelente post!

Há q imperar o bom senso. Há q conhecer as limitações dos BIM e tentar evitar todos os eventuais erros (grosseiros!) q possam surgir dessas limitações. Afinal há quanto tempo é q existe BIM mesmo? Estou a referir à tecnologia propriamente dita e não aos “processos de intenções” inerentes à metodologia BIM que sempre proliferaram por aí.

Ainda continuamos a viver a transição CAD/BIM. Os softwares só agora começaram a definir e a diferenciar um true BIM de solução híbridas CAD/BIM reinantes pelo menos até 2005.

BIM a funcionar em pleno pressupõe a aplicação e integração num único MODELO, de todas especialidades relativas a um projecto. Este é o sonho dos entusiastas (como eu). Esta é a situação ideal! Se calhar um dia lá chegaremos, se os Donos de Obra assim o desejarem! Basta especificarem no Caderno de Encargos: “quero que o meu projecto seja feito todo ele em BIM”. Ou os projectistas dão a corda aos sapatos e percebem de uma vez por todas o que é um BIM, desenvolvendo eles próprios o dito “Projecto BIM”, ou então procuram quem os faça. (Está aí uma oportunidade de negócio!)

Regressando à terra … grande parte das experiências BIM que conheço, morrem com os projectos de Arquitectura. Esta é a realidade do dia a dia. Não existe a integração das especialidades (engenharias), Não existe “Modelo único BIM”, não existe nada! Ponto final! … Tudo isto porque ninguém pediu, porque as especialidades trabalham de forma diferente, etc, etc, etc …

Se é difícil a sua aplicação entre projectistas (Arquitectura e restantes especialidades), agora imaginem a sua aplicação na lógica dos procedimentos do Empreiteiro. Não podemos esperar que empreiteiro de facto, venha a substituir o papel de todos os intervenientes no processo. BIM não é a varinha mágica para a solução de todos os problemas! Na minha modesta opinião esse é o “ponto negro” (por enquanto!) dos BIM. Tecnologia existe, Know-How também … o mercado vai encarregar de fazer o resto. É tudo uma questão de tempo. Sou optimista.

BIM tem de permitir a interacção/interligação (online) com outras ferramentas incluídas no ciclo de produção e manutenção dos edifícios, visto na lógica “ProjectoConstruçãoGestão e Manutenção”

Até lá, é preciso trabalhar, trabalhar, trabalhar … ;-)

(arq.rfernandes@gmail.com)

Revit_blog disse...

Sobre este "tread" e o anterior só tenho uma coisa a acrescentar e que ajudava a resolver muitos dos problemas que temos aqui apresentado, basta que os potenciais compradores de soluções BIM, aprendam a valorizar o trabalho de consultadoria e que em vez de comprarem produtos, comprem soluções, devidamente acompanhadas de correcta implementação, formação, projectos piloto, etc.
Felizmente tenho tido casos de sucesso quando essa abordagem é admitida, resultando em utilizadores satisfeitos e transições correctas.

Rafael Fernandes disse...

quis dizer: "na lógica “Projecto-->Construção-->Gestão e Manutenção”

Rafael Fernandes disse...

... Portanto, estão definidos campos de actuação (mercado!) dos BIM:

- "Projecto": Arquitectura + Especialidades

- "Construção": Empreiteiros/Construtores e Fiscalização

- "Gestão/Manutenção": Imobiliárias e Donos de Obra

Todos eles constituem potenciais utilizadores de BIM. O "target" já está definido

Ou a iniciativa parte das empresas já constiuídas, lançando-se com meios e recursos próprios na aventura BIM); ou então irão surgir oportunidades para "outsourcings", possibilitando assim o surgimento de empresas especializados só em BIM, para as novas necessidades do mercado ...

Eu não tenho a veia empreendedora, por isso não posso arriscar, nem tenho recursos $$$ para investir ;-)

Acho q nasci para ser "caça" e não "caçador" ;-) ... mas as oportunidades estão aí ...

Miguel Krippahl disse...

Uma vez ouvi esta frase, que me ficou na cabeça:
"Of mamals and dinossaurs".

Ou seja, os dinossaurios, gigantes, dominando o planeta, não sobreviveram a uma catástrofe.

Os mamíferos, pequenos, nocturnos, versáteis, adaptaram-se rápidamente ás novas condições.

Nesta mudança que se avizinha, talvez compense ser-se mamífero...

Rafael Fernandes disse...

Ou mamífero ou Dino, vamos ter de enfrentar muitos altos e baixos ...

O problema maior advém das inevitáveis e indevidas comparações que vão surgindo nesse nosso longo percurso. São comparações do tipo:
- Perde-se mais tempo nos BIM do q no AutoBAD;
- Perde-se mais tempo detalhando coisas em BIM do q não fazendo no AutoBAD;

Ou seja, os BAD's são bons porque os projectistas não são obrigados a pensar nos problemas e nas sua soluções, porque em obra (na maquete real) logo se vê! ... num apelo claro à nostalgia dos BAD's, mesmo sabendo das diferenças abismais que separam esses dois mundos ...

E esses ataques vêm de todo o lado, mesmo daqueles que ao teu lado na aprendizagem deveriam ter outra atitude.

Um colega meu, quando confrontado com primeiros obstáculos BIM à sua frente, o comentário tem sido invariavelmente "esta treta não presta! é estúpido! o AutoBAD faz e este não faz! etc, etc, etc ..."

Confesso, é destruidor! é demolidor! e muitas vezes, a estupidez até é da pessoa e não do BIM ...

Face a um problema de extracção de áreas, de fácil resolução, mas onde era exigida alguma (pouca!) pesquisa, algum conhecimento da lógica inerente à coisa, visto ser a primeira vez ... a solução foi radical: "não tenho que ler nada! escrevo um texto, edito e ponho lá o valor escrito!" ou seja, tudo à lá AutoBAD!

Posso conseguir muita coisa, mas não posso mudar a mentalidade das pessoas. Não consigo!

(foi um desabafo BIM)

António Aguiar da Costa disse...

Julgo que todos os comentários são bastante interessantes e deixam-me sempre a pensar: "Mas afinal qual será a visão de um arquitecto, projectista ou construtor acerca do BIM?"
Esta para mim é uma questão essencial. O BIM não se trata apenas de 3D. Não se trata apenas de automatização. Não se trata apenas de animação. Enquanto estas ideias se assumirem como as potencialidades do BIM julgo que nada vai mudar. Falar sobre o BIM é importante porque é realmente preciso que todos sejamos esclarecidos.

Para mim as potencialidades estão na interoperacionalidade, na capacidade de reformular toda a cadeia de produção do sector da construção, em que, tal como acontece em indústrias mais desenvolvidas, como a automóvel, o produto poderá então fluir numa cadeia de produção organizada e em constante comunicação.

O grande desafio é conseguir que o BIM ligue todos os intervenientes da cadeia de produção, incluindo até fornecedores de materiais, consultores, donos-de-obra, e que permita a criação de uma rede de gestão de projectos alargada.

Na minha opinião o verdadeiro poder de mudar o panorama nacional está na mão do ministério das obras públicas. Quando realmente decidir organizar a produção e aumentar a produtividade do sector, então surgirão obviamente mais preocupações relativamente à implementação do BIM.

Miguel Krippahl disse...

António

Como é hábito, concordamos em tudo.

Ou quase tudo...

Para mim, o aumento de produtividade do sector da construção não está nas mãos do governo, mas sim das empresas.

Aliás, socorrendo-me do seu exemplo da indústria automóvel, poderei afirmar que:

1- O estado garante o interesse público, ou seja, questões como a segurança, a sustentabilidade, os direitos do trabalho, etc.

2- As empresas procuram a rentabilidade, dentro dos condicionamentos impostos pelo estado.

No caso vertente, se ficarmos á espera que o estado promova o BIM, estamos mal.

António Aguiar da Costa disse...

Miguel

O comentário que fez é bastante oportuno. Concordo que, numa situação ideal, o Estado deve existir para garantir o bom funcionamento de um país, tentando não intervir orgânicamente.

No entanto, olhando para as estatísticas, verificamos que, no geral, a produtividade Portuguesa é cerca de metade da produtividade da Irlanda, França ou Itália.
A situação é grave.

O sector da Construção em Portugal apresenta quedas constantes já desde 2001.A situação é grave.
Acresce o facto de as economias nos países da Europa de Leste estarem a ter bons desempenhos o que pode penalizar ainda mais a situação Portuguesa.

Por estas razãos, entre outras, julgo que o estado tem mesmo que intervir. Não promovendo o BIM, mas promovendo as novas tecnologias, melhores técnicas de Gestão e melhores sistemas de comunicação.

Para além disso,julgo que o Estado tem um papel no sector da Construção, distinto do papel que pode ter noutros sectores, pois é um dos maiores donos de obra do país, tendo por isso todo o interesse no aumento de produtividade, organização e competitividade.

Miguel Krippahl disse...

António

O único contributo que o estado pode dar para aumentar a produtividade das empresas é o de reduzir na burocracia.

Que, como nós sabemos, no sector da construção em Portugal é imensa.

Nesse caso, dou-lhe razão. Se o Estado promover o e-licenciamento à semelhança do Corenet de Singapura, ou do que se está agora a começar nos EUA, nos paises Escandinavos e na Escócia, então teremos de certeza um aumento significativo na produtividade do sector.

Mas se por incentivo estamos a falar de formação, apoios fiscais, ou outros quejandos, esqueça.

Esse "incentivo" apenas servirá para encher (mais) os bolsos de alguns.

António Aguiar da Costa disse...

Pois, nunca me passou pela cabeça a questão dos incentivos. Sou completamente contra esse tipo de abordagens.

Ao que me refiro é exactamente medidas como o e-licenciamento, que referiu, criação de redes integradas de informação na construção, e, por exemplo, maior responsabilização dos intervenientes e também maior reconhecimento de quem promove a Qualidade.

Por exemplo, a recente medida para limite dos trabalhos a mais é,para mim, um bom contributo para que, pouco a pouco, comecemos a interiorizar a importância de trabalharmos de forma eficiente e com qualidade.